Com Amor, Simon – ainda há MUITO a aprender!

No cinema, na televisão e, principalmente, na internet. A diversidade social tem se tornado, nos últimos tempos, um dos principais assuntos debatidos na realidade e na ficção. Em produções cinematográficas, cada vez mais é comum ver mulheres fortes em papéis de destaque, assim como negros conquistando espaços onde não os víamos antes, além do típico dilema entre gênero e sexualidade. Sobre o último tema, vem em mente alguns títulos recentes, super aclamados pela crítica, como o vencedor do Oscar ‘Moonlight’ e o recente indicado ‘Me Chame Pelo Seu Nome’. Outro sucesso do cinema, que também ganhou espaço nos principais festivais ao redor do mundo, é ‘Mereço Ser Amado’, produção independente de Tom Ford. Mas aqui eu lhes faço um questionamento: será que dá para ir mais além?

‘Com Amor, Simon’ prova que dá para ir mais além sem ousar nem um pouco. Meio controverso, né?! Eu explico. O longa-metragem inspirada no best-seller ‘Simon vs A Agenda Homo Sapiens’, de Becky Albertalli, não tem um dos roteiros mais surpreendentes, nem as melhores atuação e fotografia, mas acerta justamente com a leveza e simplicidade da produção pois direciona o assunto à famílias e jovens, e quebram o tabu em torno do tema, falando tranquilamente sobre um jovem que descobre a homossexualidade.

Sem tanto esforço, ‘Com Amor, Simon’ nos conta os dilemas de um adolescente de classe média, interpretado por Nick Robinson, (de Jurassic World), que vive um sonho americano: família bem estruturada, estuda na típica High School e está prestes a cursar a faculdade em Los Angeles. Mas Simon, ainda sem coragem de assumir que é gay, descobre que um rapaz da mesma escola também esconde o mesmo segredo e passa a conversar com ele, de forma anônima, por quem se apaixona.

O filme peca em trabalhar seus conflitos em ambientes tão clichês, como escolas de ensino médico, bairros de classe média e festas de halloween. Outro ponto que perdeu força foi a atuação de Robinson, que, mesmo presente em quase todas as cenas, não deu a Simon momentos dramáticos ou oportunidades para se destacar no papel. Mesmo entendendo que o papel de Simon lhe compromete a ser introvertido e tímido, por conta de seu medo de ser não ser aceito, faltou correr mais riscos.

Uma nota é preciso ser feita: ‘Com Amor, Simon’ ainda tem MUITO a ensinar.

Em quesito roteiro, uma indagação que Simon repete mais de uma vez é: por que eu tenho que assumir que sou gay e um hétero não precisa assumir que é hétero? Ora, a resposta pode ser desenvolvida de diversas formas, por diversas pessoas diferentes, mas será que ela é refletida antes de ser respondida? O filme mostra situações rotineiras que jovens homossexuais passam durante a adolescência, como a família pressionando a iniciar a vida sexual com meninas, as frequentes piadas homofóbicas nas escolas e a falta de interesse em entender como o outro se sente em relação a tudo isso, no caso de Simon, o leva a tomar muitas decisões erradas com medo de ter seu segredo revelado.

Desenvolvendo a trama como um típico filme da ‘Sessão da Tarde’, volto a repetir que o filme acerta em buscar atingir um público mais popular e nem é preciso ser gay para observar que a opressão vivida por Simon é muito presente ainda hoje. Na sala de cinema, em sessão de pré-estreia, foi muito desconfortável perceber que muitas pessoas não entenderam a mensagem que Simon quis passar e, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo personagem, continuaram com piadas desnecessárias em relação à sexualidade dele.

‘Com Amor, Simon’ é baseado em best-seller dos EUA (Foto: Divulgação)

E para quem está considerando se assiste o filme ou não, pode ter certeza que ele vai lhe arrancar boas risadas. A produção acerta ao inserir um humor sutil, e algumas vezes crítico, em diversos momentos do filme, o que dá um tom bem mais leve ao assunto e agrada todos os públicos.

Em contrapartida, umas das maiores frustrações que senti ao assistir o filme foi que não tive a oportunidade de conhecer melhor os coadjuvantes. Eles servem como base para os conflitos de Simon mas suas potencialidades não são exploradas, como humor e até mesmo mais emoção. Uma pena, pois desperdiçou oportunidade de dar mais espaço a Katherine Langford, da série ‘Os 13 Porquês’, Alexandra Shipp, de ‘X-Men – Apocalipse’, e a vencedora do Globo de Ouro, Jennifer Garner, dentre outros personagens irreverentes.

Se isso fosse diferente, talvez seria mais empolgante chegar até o final da trama torcendo ainda mais para que tudo desse certo e o protagonista tivesse o seu tão – clichê – final feliz. Esse envolvimento deixou a desejar, o que é comum nesses filmes teens, de ‘Sessão da Tarde’. Mesmo assim, é aplaudível a coragem de transformar a história de Simon em uma produção cinematográfica e o retorno disso, mesmo antes da estreia no Brasil, já é notado com sua popularidade nas redes sociais, principalmente entre os jovens.

Que não se tenha mais medo de falar sobre amores como o de Simon.

Texto: Victor Cruz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *